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"Autópsia de um loop: 3 tentativas, 1 bug, zero conserto (e o pedido que teria resolvido)"

"Três pedidos de conserto, nenhuma informação nova pra IA. A reconstrução de um loop, rodada por rodada, e o pedido com evidência que teria parado ele."

"Sabe quanto token foi usado nessas três tentativas de correção? 211 mil tokens. Para não consertar nada."

Quem escreveu foi um dev brasileiro no TabNews, um fórum brasileiro de tecnologia, no começo de 2026. Ele montou o mesmo app em três plataformas. Numa delas, a construção inteira custou 39 mil tokens, uns R$ 3,21 pelas contas dele. Depois vieram três pedidos de correção, um bug que não saiu do lugar, e 211 mil tokens: 5,4 vezes o preço de construir o app, pra resultado zero. Token é a unidade em que a IA mede o texto que lê e escreve; é por ela que o crédito sai.

É um teste de uma pessoa, não estatística. Mas a forma é a de sempre, e ele mesmo resume: "você só descobre o problema depois de gastar o crédito".

Ele não publicou o texto de cada tentativa, então não vou fingir que sei o que ele digitou. Faço a autópsia do padrão, rodada por rodada, do jeito que eu vejo acontecer. O bug abaixo é inventado. O mecanismo, não.

O corpo: um botão que não salva

O cliente preenche o pedido, clica em Salvar, e nada acontece. Nenhuma mensagem, nenhum pedido novo na lista.

Tentativa 1. Você escreve: "o botão de salvar não funciona, conserta". A IA não viu a sua tela, não sabe se deu erro nem qual. Faz o que qualquer um faria no escuro: chuta a causa mais comum, mexe em dois arquivos e responde "Corrigido!". O bug continua.

Tentativa 2. "Continua não funcionando." Informação nova nessa frase: só que o chute 1 errou. A IA chuta a segunda causa mais comum, e aqui está o detalhe que encarece tudo: ela não desfaz o chute 1. O código agora tem o conserto errado mais um novo. A própria documentação do Lovable descreve isso: conserto às cegas, repetido, "tende a empilhar código que esconde o problema de verdade".

Tentativa 3. "Ainda não. Por favor, conserta de verdade." Informação nova: a sua irritação. A IA responde com um conserto maior e reescreve o formulário inteiro. Às vezes o botão até parece funcionar, porque a mensagem de erro sumiu junto, e o pedido segue sem ir pro banco. Ou volta a salvar e o total quebra, porque as peças se puxam.

E cada rodada tende a custar mais que a anterior, porque a IA trabalha em cima da conversa inteira, e a conversa só cresce, cheia de tentativa errada.

A causa da morte

Não foi a IA ser burra, nem você pedir mal. Foi isto: em três rodadas, a IA não recebeu nenhuma evidência. "Não funciona", "continua não funcionando" e "conserta de verdade" são a mesma mensagem com três tons. Ela consertou no escuro três vezes, e cobrou as três.

A informação que faltava existia o tempo todo. Estava na sua tela, num lugar que ninguém te mostrou.

O pedido que teria resolvido

Duas partes: pegar a evidência, depois pedir diagnóstico em vez de conserto.

1. Abra o console do navegador. O console é uma janela escondida do navegador onde o app escreve os erros que não mostra pro usuário. No Chrome: Ctrl + Shift + J no Windows, Cmd + Option + J no Mac. Abre um painel do lado ou embaixo da página.

2. Reproduza o bug com o console aberto. Preencha o pedido, clique em Salvar. Se aparecer uma linha vermelha no console, é ela. Copie a linha inteira. Tire um print da tela também. (Linha amarela é aviso, quase sempre irrelevante.)

3. Mande assim:

O QUE EU FIZ:     entrei com a conta teste1, abri Pedidos,
                  preenchi e cliquei em Salvar
O QUE ESPERAVA:   o pedido aparece na lista
O QUE ACONTECEU:  nada muda na tela, nenhuma mensagem
ERRO NO CONSOLE:  [cole a linha vermelha inteira aqui]

Não mude código ainda. Me diga a causa provável, qual
trecho do código mostra isso, e como eu confirmo antes
da correção. Se essa informação não basta pra saber,
me diga o que mais eu preciso te trazer.

No Lovable, mande isso no modo de planejamento (Plan mode), que conversa sem mexer no código. É o que a documentação deles recomenda quando o erro volta: parar os consertos às cegas e pedir a causa antes de mudar mais código. Ela também diz que, embora o Lovable leia os registros do app sozinho, colar a mensagem exata do console "ainda ajuda".

4. Quando ela propuser o conserto, cerque:

"Corrija a causa, não esconda a mensagem de erro. Depois me diga o passo exato que eu faço pra ver funcionando e o que tem que aparecer."

A primeira frase é quase literal da documentação do Claude Code, que dá como exemplo de pedido bom "corrija a causa raiz, não suprima o erro". A segunda é a mesma coisa que eu digo sempre: não aceite o "consertei", peça prova.

Console vazio? O erro provavelmente foi no servidor, a parte do app que roda longe do navegador, e aparece no registro dele, o log (como achar, aqui). Mesmo sem linha nenhuma, o pedido acima ainda diz o que você fez, o que esperava e o que viu.

Isso troca chute por diagnóstico. Com o erro colado, a IA sabe onde olhar; com "não mude código ainda", a primeira rodada custa uma resposta curta, não dois arquivos mexidos. Não é garantia: tem bug que nem com evidência sai na primeira, e aí vale a regra das duas tentativas e recomeçar a conversa levando o que aprendeu. Mas o loop desta autópsia morre na rodada um.

O que fazer hoje

Abra o seu app, com tudo funcionando, e aperte o atalho do console. Clique em tudo e veja se surge alguma linha vermelha. Muita gente descobre ali um erro que já existia. E quando algo quebrar, o console já vai ser um lugar conhecido.

Era uma parede de várias

Levar evidência pra IA é a letra N do ciclo que eu uso: não aceitar sem prova, nem a do erro, nem a do conserto. Mas ela depende de peças que vêm antes: o comportamento certo escrito antes do pedido, ponto de retorno pra quando o conserto piorar, conta de teste pra reproduzir o bug sem tocar em dado de cliente. Elas têm ordem. Quem tem as de antes faz esta autópsia em cinco minutos. Quem não tem paga as três rodadas.

Fontes